Mesmo com a retórica agressiva de Donald Trump contra grandes produtores, o mercado de petróleo se mantém estável, impactando a inflação e as contas públicas no Brasil.
As recentes tensões geopolíticas envolvendo os Estados Unidos, o Irã e a Venezuela, com ameaças diretas do ex-presidente Donald Trump, causaram preocupações momentâneas nos mercados de petróleo. Contudo, esses eventos não foram suficientes para alterar significativamente as expectativas de preços do barril para este ano.
Analistas do setor apontam que o mercado internacional de petróleo está vivendo um período de excesso de oferta. Essa abundância de produto tem sido o principal fator para manter os preços controlados, apesar das instabilidades políticas.
A previsão geral para 2026 é que o preço do barril de petróleo se mantenha entre US$ 60 e US$ 65, um patamar considerado viável para os investimentos do setor. Essa dinâmica, conforme informações divulgadas pelo g1, traz impactos tanto para a inflação quanto para as contas públicas no Brasil.
O Efeito Trump nas Cotações do Petróleo
Grande parte dos eventos geopolíticos que influenciaram o preço do petróleo nos últimos tempos está ligada às ações e declarações de Donald Trump. Nos primeiros dias de 2026, por exemplo, Trump ordenou um ataque à Venezuela que resultou na prisão do presidente Nicolás Maduro, abrindo caminho para maior acesso dos EUA ao petróleo venezuelano.
Na ocasião, Trump afirmou que os EUA administrariam a Venezuela temporariamente e assumiriam o controle das vendas de petróleo. Houve um impacto imediato nos mercados, com o barril do petróleo Brent subindo 1,6% para US$ 61,76, mas o efeito foi breve, despencando 7% para US$ 60,70 no dia seguinte, segundo dados da consultoria Elos Ayta.
No Irã, um dos países fundadores da Opep e o 5º maior produtor de petróleo do mundo, as tensões também aumentaram após Trump sugerir a possibilidade de um ataque. O país, que fica próximo ao Estreito de Ormuz, rota por onde passa cerca de 20% do petróleo global, viu os preços subirem mais de 4%, de US$ 63,87 para US$ 66,52, por temores de interrupções na produção e no tráfego. No entanto, os preços voltaram a cair após o recuo do presidente americano.
O vaivém de Trump é uma característica conhecida. Ele voltou a ameaçar o regime iraniano, mas depois sugeriu negociações sobre o programa nuclear. Representantes dos dois países chegaram a se encontrar em uma “atmosfera muito positiva”, segundo o ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araqchi, demonstrando abertura para futuras negociações.
Excesso de Oferta e a Resiliência do Mercado
Apesar das incertezas geopolíticas que causam oscilações de curto prazo, a dinâmica de oferta e demanda continua sendo o fator preponderante para o mercado de petróleo. Artur Watt, diretor-geral da ANP, observa que o preço do petróleo já vinha em trajetória de baixa, e as notícias apenas provocam oscilações temporárias.
Régis Cardoso, responsável pela cobertura de óleo e gás da XP, reforça que há um consenso de que os balanços de oferta e demanda para 2026 indicam um excesso de oferta. Ele explica que o risco envolvendo o Irã, embora real para produtores que dependem do Estreito de Ormuz, já está incorporado aos preços, e um impacto maior seria limitado.
No caso da Venezuela, mesmo que os EUA passassem a controlar as vendas de petróleo, os efeitos seriam de curto prazo. Roberto Ardenghy, presidente do Instituto Brasileiro de Petróleo (IBP), destaca que o petróleo venezuelano é mais pesado e de difícil processamento, exigindo tecnologia e conhecimento técnico que o país não possui.
Estudos do IBP indicam que seriam necessários cerca de dois anos para iniciar projetos de retomada da produção na Venezuela e pelo menos oito anos para recuperar os níveis históricos, que chegaram a mais de 3 milhões de barris por dia nos anos 1970.
Impactos para o Brasil: Inflação e Contas Públicas
Para o Brasil, a estabilidade do preço do petróleo entre US$ 60 e US$ 65 traz dois efeitos principais. Por um lado, o petróleo mais barato ajuda a conter a inflação, pois reduz a pressão sobre os preços da gasolina e do diesel nos postos de combustível.
Em contrapartida, essa queda nos preços pode prejudicar as contas públicas. Uma parte significativa da arrecadação do país depende do petróleo, e preços mais baixos significam menos arrecadação de royalties, participações especiais e dividendos da Petrobras, já que o governo é acionista controlador e lucros menores da empresa se traduzem em menos repasses.
Além disso, o cenário de preços mais baixos pode desestimular novos projetos de exploração por parte das petroleiras, pois o retorno financeiro pode não compensar os altos volumes de investimento necessários.
Por que a gasolina ainda é cara, mesmo com petróleo mais baixo?
Apesar da estabilidade ou queda nos preços do petróleo, muitos consumidores ainda se questionam sobre o preço da gasolina. Régis Cardoso, da XP, explica que a Petrobras tem uma política de preços que busca reduzir a volatilidade da gasolina e do diesel, o que pode criar a impressão de que a queda do petróleo não se reflete imediatamente na bomba.
Ele acrescenta que o preço final pago pelo consumidor depende de vários fatores, não apenas do petróleo. A Petrobras, segundo Cardoso, tem mantido seus preços em torno da paridade com o mercado internacional. A última mudança significativa nos preços da gasolina A foi uma redução de R$ 0,14 em janeiro de 2026, após três meses sem alterações. A companhia ressalta que seus preços representam apenas um terço do valor final nos postos de combustível.
