Entenda como registros de débitos quitados ou até mesmo nunca existentes pelo Banco de Brasília (BRB) no Sistema de Informações de Créditos (SCR) do Banco Central estão afetando milhares de consumidores que tinham relacionamento com o Banco Master e o Will Bank, impactando negativamente seus scores de crédito e o que fazer para resolver a situação.
Clientes que contrataram empréstimos ou serviços financeiros junto ao Will Bank ou ao Banco Master estão enfrentando uma situação preocupante: a descoberta de dívidas registradas como ativas ou em atraso no Sistema de Informações de Créditos (SCR) do Banco Central, mesmo após terem sido quitadas ou jamais existido. O Banco de Brasília (BRB) é apontado como o responsável por esses registros.
Essa situação tem gerado grande preocupação e impactos negativos no dia a dia dos consumidores, que percebem o problema ao consultar o Registrato, sistema do BC que compila dados financeiros. Muitos desses clientes nunca tiveram conta no BRB, mas seus dados foram transferidos por meio da compra de carteiras de crédito.
A controvérsia levanta questões sobre a responsabilidade na gestão e atualização das informações de crédito, e as medidas que os bancos e os consumidores devem tomar diante de registros indevidos. A informação foi divulgada pelo g1.
Dívidas Inesperadas: O Registro no Banco Central
A raiz do problema reside na aquisição de carteiras de crédito. O BRB vinha comprando carteiras do Banco Master desde 2024 e, posteriormente, recebeu novas carteiras como compensação por outras consideradas problemáticas. Parte desses ativos, segundo relatos, teria sido originada pelo Will Bank.
Quando os clientes consultam o Registrato, encontram débitos vencidos ou ativos em nome do BRB, mesmo que já tenham pago suas obrigações financeiras ou que os débitos sejam desconhecidos. Um cliente, que preferiu não ser identificado, teve um financiamento imobiliário negado devido a uma dívida indevida de R$ 10 mil.
Em nota, o BRB informou que, após a liquidação do Will Bank, deixou de receber do liquidante as informações necessárias sobre o repasse e a quitação das operações de crédito cedidas. O banco alega que, pelas regras contratuais, a instituição que originou os créditos deveria acompanhar os pagamentos e repassar os valores, fluxo que não foi retomado pelo liquidante.
O Histórico por Trás dos Registros Problemáticos
A relação entre o BRB e o Banco Master é complexa. O BRB chegou a anunciar, em março de 2025, um acordo para comprar o Master por R$ 2 bilhões, mas a transação foi vetada pelo Banco Central em setembro do mesmo ano. Após a liquidação extrajudicial do Master, uma operação da Polícia Federal passou a investigar um suposto esquema de fraudes bilionárias.
Nessa investigação, o BRB teria comprado R$ 12 bilhões em carteiras de crédito de baixa qualidade do Master, sem garantia financeira. Como compensação por essas carteiras problemáticas, o Master transferiu novas carteiras ao BRB, que, supostamente, incluíam ativos originados pelo Will Bank, daí a ligação com os clientes afetados.
O g1 tentou contato com Eduardo Bianchini, liquidante nomeado pelo Banco Central para o Will Bank e o Banco Master, mas não obteve resposta até a última atualização da reportagem. A situação evidencia a complexidade das operações de cessão de crédito e a importância da comunicação transparente com o consumidor.
Quem é o Responsável e o que Dizem os Especialistas?
Especialistas consultados pelo g1 indicam que a cessão de créditos é uma prática comum, mas exige que o consumidor seja notificado por escrito sobre a transferência. Pedro Ramunno, professor de direito empresarial do Mackenzie, explica que sem essa notificação, a cessão não produz todos os seus efeitos, e o consumidor deve saber a quem pagar.
Embora o BRB alegue falta de informações do liquidante, advogados avaliam que o banco público deveria ter feito uma verificação prévia dos dados, especialmente diante dos riscos envolvidos nessas carteiras. Bruno Balduccini, sócio do Pinheiro Neto Advogados, afirma que o banco comprador é responsável por classificar os novos clientes e atualizar as informações imediatamente.
Gustavo Kloh, professor da FGV Direito Rio, reforça que o BRB não pode alegar que um terceiro seja responsável pelo registro de dívidas indevidas. “O banco precisa fornecer informações corretas ao consumidor e não pode registrar uma situação de crédito equivocada”, afirma Kloh, complementando que, mesmo sem culpa pelo problema, o BRB é responsável por apresentar uma solução.
Impacto no Score e Como o Consumidor Deve Agir
A falta de solução para o registro de dívidas indevidas tem causado prejuízos reais. Além da negação de financiamentos, o score de crédito dos consumidores é diretamente afetado. O site Reclame Aqui registrou centenas de relatos semelhantes, com um aumento de 326% nas reclamações entre agosto e dezembro de 2025, em comparação com o mesmo período de 2024.
A orientação dos especialistas é que os clientes entrem em contato com a instituição, solicitando por escrito o contrato, o valor atualizado, quem está cobrando e qual banco originou a dívida. Se não houver contrato, trata-se de uma cobrança indevida, e o consumidor deve formalizar a reclamação e exigir a interrupção da cobrança, gerando um protocolo.
Se a situação não for resolvida, o ideal é registrar reclamações em órgãos competentes como o Procon e o Consumidor.gov. Em casos mais persistentes, o consumidor pode ter que recorrer à Justiça, seja por meio do Juizado Especial ou da Justiça comum, para garantir a correção dos dados e a reparação de possíveis danos.
Veja a nota do BRB na íntegra:
“O BRB informa que, após a liquidação do Will Bank, deixou de receber do liquidante as informações necessárias sobre o repasse e a quitação das operações de crédito cedidas. Pelas regras contratuais, o banco que originou os créditos deve acompanhar os pagamentos e, na sequência, fazer o envio dos dados e dos valores correspondentes ao BRB.
Após a liquidação, esse fluxo não foi retomado ainda pelo liquidante de modo que o Banco ainda não dispõe de informações suficientes para a baixa das operações. Por essa razão, alguns contratos apareceram como ativos ou inadimplentes no Sistema de Informações de Créditos (SCR), mesmo já tendo sido pagos no banco de origem.
O BRB realizou conciliações internas e encaminhou comunicados ao liquidante solicitando a retomada do processo, por parte dele. O Banco destaca, ainda, que a compra das carteiras seguiu todas as regras e contratos, e lembra que toda operação de crédito é registrada no SCR.
O Banco segue atuando junto ao liquidante para normalizar a situação, tomando medidas internas e está preparado para realizar a correção imediata dos dados assim que houver retorno do administrador do banco em liquidação. Seguimos acompanhando o tema de perto e cobrando os responsáveis pelo envio das informações para que a normalização ocorra no menor prazo possível.”
