Exportações de Carne Bovina do Brasil para a Argentina Disparam 2028% em 2024: Entenda os Motivos por Trás Deste Crescimento Recorde no Comércio Regional
A Argentina, tradicionalmente não figurando entre os maiores compradores de carne bovina do Brasil, viu suas importações do produto brasileiro dispararem de forma surpreendente neste ano. Entre janeiro e outubro, o Brasil vendeu 11 mil toneladas de carne para o país vizinho, um volume vinte vezes maior do que as 526 toneladas embarcadas no mesmo período do ano passado, representando um aumento de 2028%.
Essa elevação expressiva tem chamado a atenção de especialistas do setor. Duas razões principais emergem para explicar esse fenômeno: o tarifaço imposto pelos Estados Unidos ao Brasil e uma queda acentuada na produção de carne na própria Argentina, um cenário que, segundo projeções, deve persistir.
A análise detalhada dos fatores que levaram a essa mudança no padrão comercial revela uma complexa interação de políticas econômicas e condições climáticas, conforme informações divulgadas pelo g1.
Efeito Tarifaço dos EUA e a Estratégia Argentina
Um dos catalisadores para o aumento das compras argentinas foi o tarifaço imposto pelos Estados Unidos ao Brasil a partir de abril. Essa medida estimulou os produtores argentinos a direcionarem uma maior parte de sua carne para o mercado americano, aproveitando o espaço deixado pelo produto brasileiro.
A Argentina, sendo a quinta maior produtora de carne bovina do mundo, atrás de EUA, Brasil, China e Índia, teve uma oportunidade de ouro para expandir suas exportações para os americanos. Com mais carne sendo vendida para os EUA, o país vizinho precisou buscar alternativas para não desfalcar seu abastecimento interno.
É importante lembrar que a Argentina possui o maior consumo de carne bovina por pessoa no mundo. Para garantir que seus cidadãos continuassem com acesso ao produto, os argentinos recorreram à carne brasileira. O pico nas compras de carne brasileira ocorreu em setembro, um mês após o então presidente Donald Trump aumentar para 50% a sobretaxa para o Brasil, tarifa que só foi retirada em novembro deste ano.
Queda na Produção de Carne Argentina Impulsiona Importações
Contudo, o tarifaço não foi o único fator por trás dessa disparada. As compras argentinas já começavam a alcançar patamares altos em fevereiro, dois meses antes de os EUA anunciarem a primeira taxa de 10% que atingiu o Brasil. A produção de carne na Argentina vem caindo nos últimos dois anos, conforme dados do Departamento de Agricultura dos EUA (USDA).
Fernando Henrique Iglesias, consultor da Safras & Mercados, explica que o aumento nas compras se deu porque a produção argentina diminuiu devido a secas e medidas econômicas do governo anterior. Ele destaca que, no início desta década, os efeitos do La Niña afetaram a taxa de prenhez das vacas na Argentina. “O custo para produzir ficou muito alto e isso acabou gerando um encolhimento de rebanho”, afirma Iglesias.
De 2023 a 2025, a quantidade de bovinos na Argentina caiu de 68,8 milhões para 67 milhões, segundo o USDA. Além disso, as políticas do ex-presidente Alberto Fernández, que governou entre 2019 e 2023, também influenciaram os pecuaristas a diminuírem a produção. Fernández implementou taxas de exportação para produtos agropecuários, incluindo uma de 9% para a carne bovina, e chegou a suspender as exportações por 30 dias em maio de 2021.
Políticas de Milei e o Cenário Atual
Em contraste com a gestão anterior, o atual governo liberal de Javier Milei adotou uma abordagem diferente. Ele não apenas reduziu a taxa de exportação da carne bovina, como a zerou entre 22 de setembro e 31 de outubro deste ano. Thiago Bernardino de Carvalho, responsável pela área de pecuária no Cepea/USP, aponta que essas medidas estimularam o aumento das exportações argentinas.
“Com a Argentina podendo exportar mais, sobra menos carne no mercado doméstico, o preço sobe e ela vem para mercados como o brasileiro para comprar mais carne”, explica Carvalho. Apesar disso, dados da Câmara da Indústria e Comércio de Carnes e Derivados (Ciccra) mostram que as exportações totais de carne da Argentina caíram 10,5% em volume entre janeiro e outubro, puxadas por uma diminuição das compras da China.
No entanto, nesse mesmo período, as vendas argentinas para os EUA aumentaram 7,5%. Lygia Pimentel, CEO da consultoria Agrifatto, ressalta que a retirada parcial da carne brasileira do mercado americano abriu espaço para os argentinos. Ela explica que países como Paraguai, Argentina e Austrália têm comprado muita carne do Brasil para abastecer seus mercados internos, enquanto exportam sua própria carne para os Estados Unidos, uma prática que não configura triangulação ilegal.
Brasil: Carne Mais Barata e Perspectivas Futuras
Além da proximidade geográfica, o Brasil se destaca por ter a carne mais barata do mercado internacional, o que o torna uma opção atraente para os argentinos complementarem seu abastecimento. Dados da Agrifatto revelam que, enquanto o preço do boi no Brasil custa, em média, US$ 61, na Argentina, ele chega a US$ 74,8. No Uruguai, a cotação alcança US$ 75,7, e no Paraguai, US$ 64,5.
Embora a compra de carne brasileira pelos argentinos tenha recuado em outubro, após o pico do mês anterior, ela ainda se mantinha em um patamar significativamente superior ao de um ano atrás. Fernando Henrique Iglesias projeta que a tendência é que o Brasil continue aumentando suas vendas para a Argentina.
“Como a produção argentina deve ficar deprimida em 2026, isso deve incentivar mais as importações”, conclui Iglesias, indicando que o mercado brasileiro de carne deve continuar sendo um pilar fundamental para o abastecimento do país vizinho nos próximos anos.
